
Nos últimos anos, temos vindo a assistir a um fenómeno crescente, silencioso e preocupante nas escolas portuguesas: o uso descontrolado de smartphones por crianças e pré-adolescentes sem qualquer acompanhamento parental.
A origem do risco não reside no smartphone, mas no vazio que o acompanha. Começa com a oferta de um smartphone aos filhos, um presente cada vez mais precoce e normalizado. Estes dispositivos cada vez mais sofisticados e poderosos oferecem conectividade constante nas redes sociais e ferramentas poderosas de IA sem qualquer tipo de formação, limites ou supervisão parental.
O problema não reside na tecnologia, talvez esteja na família. Entregar um smartphone a uma criança é abrir uma porta para um mundo muito sedutor mas que não está isento de riscos. O cenário é cada vez mais recorrente: alunos em idade precoce acedem a redes sociais, jogos e sites não adequados ao seu nível etário, envolvendo-se frequentemente em situações de risco que vão desde o ciberbullying até ao contacto com conteúdos impróprios. E os pais sem fazerem a mínima ideia. Muitas vezes também não sabem como agir ou reagir quando alguma coisa corre mal.
Esta é a primeira geração que vive num ambiente plenamente digitalizado, onde as mudanças tecnológicas são muito rápidas e afetam o bem-estar e o rendimento escolar. Ser pai ou mãe no século XXI implica conhecer os riscos do mundo digital. Alegar ignorância ou desconhecimento não é desculpa: é negligência parental.
Depois é frequente empurrar esta responsabilidade para a escola. Na escola, os professores, directores e assistentes operacionais veem-se forçados a lidar com as consequências desta negligência parental. Diariamente são confrontados com mensagens impróprias, grupos de WhatsApp onde circulam agressões e humilhações, vídeos publicados no TikTok sem consentimento, perfis falsos criados para insultar colegas e um sem fim de problemas que resultam desta violência que prolifera sem qualquer controlo parental.
Sim, insisto na família porque a escola está aberta de segunda a sexta feira, das oito às dezoito horas. E depois da escola? Como é em casa? Como é que a família lida com estes problemas? Há regras? Há restrições? Há responsabilidade?
É verdade que é mais fácil conceder do que educar, mas esta atitude pode sair muito cara. A responsabilidade educativa começa na família, continua na escola e prolonga-se pela vida social e profissional. Tal como ensinamos regras de convivência e respeito no mundo físico, temos de ensinar regras para o mundo digital. Há idades mínimas para aceder a redes sociais. Há limites para o que uma criança deve ver, dizer e partilhar com amigos ou com desconhecidos. Mas estes limites estão a ser ignorados e negligenciados…
A parentalidade digital exige tempo, atenção e presença. Não se resolve com filtros automáticos nem com a esperança de que tudo corra bem. Os adultos fazem falta, não para proibir a tecnologia, mas para educar as crianças para uma utilização consciente e responsável. Talvez seja este o maior desafio da sociedade.
Não podemos querer simplesmente eliminar a digitalização, mas sim dar-lhe um uso mais saudável, ético e responsável.
E isso é muito difícil.
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