
Newsletter 09 da comunidade de Equipas de Desenvolvimento Digital do CFAE GuardaRaia.

Newsletter 09 da comunidade de Equipas de Desenvolvimento Digital do CFAE GuardaRaia.

Nos últimos anos, temos vindo a assistir a um fenómeno crescente, silencioso e preocupante nas escolas portuguesas: o uso descontrolado de smartphones por crianças e pré-adolescentes sem qualquer acompanhamento parental.
A origem do risco não reside no smartphone, mas no vazio que o acompanha. Começa com a oferta de um smartphone aos filhos, um presente cada vez mais precoce e normalizado. Estes dispositivos cada vez mais sofisticados e poderosos oferecem conectividade constante nas redes sociais e ferramentas poderosas de IA sem qualquer tipo de formação, limites ou supervisão parental.
O problema não reside na tecnologia, talvez esteja na família. Entregar um smartphone a uma criança é abrir uma porta para um mundo muito sedutor mas que não está isento de riscos. O cenário é cada vez mais recorrente: alunos em idade precoce acedem a redes sociais, jogos e sites não adequados ao seu nível etário, envolvendo-se frequentemente em situações de risco que vão desde o ciberbullying até ao contacto com conteúdos impróprios. E os pais sem fazerem a mínima ideia. Muitas vezes também não sabem como agir ou reagir quando alguma coisa corre mal.
Esta é a primeira geração que vive num ambiente plenamente digitalizado, onde as mudanças tecnológicas são muito rápidas e afetam o bem-estar e o rendimento escolar. Ser pai ou mãe no século XXI implica conhecer os riscos do mundo digital. Alegar ignorância ou desconhecimento não é desculpa: é negligência parental.
Depois é frequente empurrar esta responsabilidade para a escola. Na escola, os professores, directores e assistentes operacionais veem-se forçados a lidar com as consequências desta negligência parental. Diariamente são confrontados com mensagens impróprias, grupos de WhatsApp onde circulam agressões e humilhações, vídeos publicados no TikTok sem consentimento, perfis falsos criados para insultar colegas e um sem fim de problemas que resultam desta violência que prolifera sem qualquer controlo parental.
Sim, insisto na família porque a escola está aberta de segunda a sexta feira, das oito às dezoito horas. E depois da escola? Como é em casa? Como é que a família lida com estes problemas? Há regras? Há restrições? Há responsabilidade?
É verdade que é mais fácil conceder do que educar, mas esta atitude pode sair muito cara. A responsabilidade educativa começa na família, continua na escola e prolonga-se pela vida social e profissional. Tal como ensinamos regras de convivência e respeito no mundo físico, temos de ensinar regras para o mundo digital. Há idades mínimas para aceder a redes sociais. Há limites para o que uma criança deve ver, dizer e partilhar com amigos ou com desconhecidos. Mas estes limites estão a ser ignorados e negligenciados…
A parentalidade digital exige tempo, atenção e presença. Não se resolve com filtros automáticos nem com a esperança de que tudo corra bem. Os adultos fazem falta, não para proibir a tecnologia, mas para educar as crianças para uma utilização consciente e responsável. Talvez seja este o maior desafio da sociedade.
Não podemos querer simplesmente eliminar a digitalização, mas sim dar-lhe um uso mais saudável, ético e responsável.
E isso é muito difícil.
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O Plano de Ação para a Transição Digital, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros nº 30/2020, assumiu-se como o motor de transformação digital do país, tendo como propósitos, a capacitação digital das pessoas e a modernização do ensino, entre outros. Seguiu-se uma fase de deslumbramento com a integração de novos equipamentos nas escolas, kits tecnológicos, manuais digitais, conectividade móvel, etc..
Depois desta fase de deslumbramento tecnológico, passou-se de forma repentina ao ceticismo tecnológico. Instalou-se neste país uma espécie de fobia à tecnologia. Dou-vos três exemplos:
Abandono dos manuais digitais
O Projeto-Piloto Manuais Digitais teve início em 2020/2021, participaram 9 Agrupamentos de Escolas num total de 48 turmas e pouco mais de 1000 alunos.
No ano letivo 2023/2024, o estudo com manuais digitais chegou a 24.011 alunos, 1175 turmas, de 103 agrupamentos escolares e escolas não agrupadas.
No ano letivo de 2024/2025 entrámos na quinta fase do projeto com uma forte redução nos números: neste momento participam no projeto piloto 81 Agrupamentos, com cerca de 674 turmas e 13 635 alunos.
Suécia, Dinamarca, França, Reino Unido e Noruega são alguns dos países que decidiram recuar na utilização da tecnologia em meio escolar. Após defenderem uma maior presença dos manuais digitais em sala de aula, decidiram dar um passo atrás. Neste momento, Portugal está a acompanhar a tendência de recuo dos países do norte.
Proibição dos Telemóveis
O Ministério da Educação recomendou às escolas a proibição de utilização de telemóveis nas escolas a alunos dos 1º e 2º ciclos. Para os alunos do 3º ciclo e secundário o ministro recomenda que as escolas não proibam os telemóveis mas, em conjunto com os alunos, criem regras sobre a sua utilização.
Numa era em que o conhecimento e o domínio tecnológico são essenciais, temos as nossas escolas a restringir o uso de telemóveis em vez de promover a sua utilização de forma útil e positiva. Uma atitude meramente proibitiva é contraproducente numa época em que o desenvolvimento da competência digital é fundamental para responder aos desafios do mundo do trabalho.
Medo da Inteligência Artificial
Defendida por uns e temida por outros, a Inteligência Artificial (IA) está na boca de toda a gente. A utilização desta tecnologia está a gerar preocupações nas escolas e nos professores, nomeadamente pelo facto de os alunos se habituarem a recorrer à IA para obter respostas ou gerar conteúdos de modo acrítico, limitando assim a sua capacidade de pensamento crítico.
Portugal regista um atraso significativo na implementação da Inteligência Artificial e, em vez de integrarmos esta tecnologia no ensino e mudarmos a forma como ensinamos e aprendemos, tememos que ela roube os nossos empregos.
E assim vamos. Podemos abandonar os manuais digitais, podemos proibir a utilização dos telemóveis e podemos desconfiar da Inteligência Artificial. Só não podemos ignorar a evolução tecnológica e impedir a sua entrada no espaço educativo. Seria o mesmo que tentar parar o vento com as mãos.

A educação está num momento de profunda transformação. Os desafios que enfrentamos são significativos, mas também as oportunidades de reimaginar e redesenhar a sala de aula.
Reinventar a sala de aula requer uma transformação focada na aprendizagem e não no ensino e implica uma mudança de paradigma e uma prática educativa em que as ferramentas digitais assumem um papel facilitador na adoção de metodologias ativas centradas nos alunos.
Não se trata apenas de incorporar novas tecnologias ou métodos de ensino; trata-se de uma mudança fundamental na nossa compreensão do que significa educar e aprender no século XXI.
A escola do presente deve questionar os modelos do passado e abrir caminho à inovação pedagógica num processo que implica alteração de práticas pedagógicas, utilização de tecnologia digital na sala de aula, alteração de metodologias e atribuição de novos papéis ao aluno.
A instalação dos Laboratórios de Educação Digital (LED) nas escolas surge num contexto de inovação e modernização tecnológica através da integração transversal de diversas tecnologias no currículo e do investimento na competência digital. Esta medida de capacitação das escolas, tem em vista a melhoria contínua da qualidade das aprendizagens e a igualdade de oportunidades no acesso a equipamentos e tecnologias educativas diversificadas.
Uma escola democrática é uma escola que a todos proporciona igualdade de oportunidades. Mais uma vez, é na escola que a maioria dos alunos tem a única oportunidade de acesso a estes recursos.
Os LED são espaços de suporte à aprendizagem que proporcionam a professores e a alunos a oportunidade, o acesso e a utilização de recursos tecnológicos de qualidade que vêm possibilitar o desenvolvimento de atividades STEM, programação e robótica, impressão 3D, produção audiovisual, entre outras. Estas atividades são potenciadoras de experiências de aprendizagem enriquecedoras que implicam o desenvolvimento de novas competências para as gerações que vão construir o futuro.
O novo Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital das Escolas deve configurar esta visão de futuro com ações programadas para transformar o dia a dia da vida escolar, não apenas nas dimensões organizacional etecnológica, mas sobretudo na sua dimensão pedagógica.
Este ciclo que agora se inicia deve dar prioridade à criação de ambientes de aprendizagem enriquecidos com tecnologias e ao desenvolvimento da competência digital. Uma competência que deve fazer parte da cultura das escolas e do seu projeto educativo.
Editorial 07

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